segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Dia 11- 24 de outubro


TOULOUSE - RENNES


Dia cansativo. Saímos de Toulouse às 7:54h. Tivemos de pegar um táxi até a Gare de Matabiau, pois era cedo demais, as ruas muito escuras e fiquei um pouco inseguro.

O trem baldeou em Nantes e chegamos em Rennes apenas às 16:16h. Oito horas e sessenta e dois minutos de viagem!!!

Era o primeiro dia de férias dos franceses. Era sábado! Daí eu digo: nenhum turista que compre um pacote turístico mequetrefe e caro de 5 noites em Paris (coitado!) terá experiências assim, que são, a meu ver, as que contam. Atravessei um bom pedaço da França até Rennes. Cortamos várias cidades importantes, vimos os franceses "in natura", em uma agradável confusão de famílias, crianças, adolescentes com pranchas de surf e skates, gatos dentro de gaiolas e muitos, muitos sanduíches e uma impossibilidade de se ir ao banheiro devido ao acúmulo de gente no chão dos corredores. O caos francês!, rsss.

Houve mesmo uma estação tão pequena em uma cidadezinha que os passageiros tiveram de descer no chão de terra, ao lado dos trilhos, pois o trem não coube inteiro ao lado da plataforma.

No tem, além da bagunça das meninas no corredor, que resolveram brincar de várias brincadeiras de meninas impróprias para trens lotados em movimento, vi belíssimas paisagens de outono com vacas, couves, canteiros de várias hortaliças, patos, gansos, cisnes... O interior da França é incrivelmente bucólico e organizado. Não se vê um só lugar de onde se diga: "que feio, como se pode morar aí?", como ocorre no Brasil.

Rennes é charmosa. Chegamos ainda com luz.

Vimos muitos turcos e gente do Norte da África. E, talvez pelo que me disseram em Toulouse e talvez pelo meu faro de morador de terceiro mundo, eles me deixaram inseguros.

Uma gentil senhora francesa que abordei na rua me informou a direção do hotel e bateu um papo comigo. Ela me disse que as pessoas estranhas na França que carregam um cão junto, como companhia, são as que realmente podem nos incomodar pois, se fizerem alguma coisa, a polícia não pode prendê-las, por conta do cão, que não tem nada a ver com a história!

E no fim ela afirmou:

- Somos um país de liberdade. É o preço da democracia...

Mas é realmente bela a democracia francesa que aceita com paciência tanta gente diferente, com hábitos incomuns, com valores muitas vezes opostos.

Saímos em Rennes, após deixarmos as coisas no hotel, para nos informarmos sobre o ônibus para o Mont Saint-Michel e comermos alguma coisa. Fizemos a besteira de entrarmos em uma casa de "kebab", onde vi no letreiro na porta alguns "combos" por preços muito em conta, por ser na França. Chegou até nós um pão (meia baguete) aberto, recheado de frango em cubo grelhado e acompanhado de katchup e batatas fritas - o nome disso era "brochette à poulet frites", por 9 euros para 2 pessoas. Confesso que só pedi pelo nome, não tinha visto antes o que e como era.

Aquele seria uma das muitas casas de "kebab" que eu veria na França. E para quem não sabe, "kebab" é o famoso "churrasco grego", que em São Paulo abominamos por sua aparência (e, muitas vezes, comprovação) de falta de higiene. O kebab também pode ser assado em espeto, intercalado por legumes. É prato típico da Grécia, Turquia e outros países mediterrâneos. O dono do bar chegou a servir um dos fregueses empurrando um arroz colorido "com as mãos", no próprio prato, e depois servindo.

Ah, achamos um supermercado Carrefour, quase na hora de fechar. Foi o que nos salvou. Compramos 1 litro de água pela bagatela de 17 centavos, 2 pacotes de biscoito por 1.80, 1 pacote de salame (0,85), 1 litro de chá (1,01), 1 lata de salada de frutas (1,31) e 4 potes de sobremesa (polpa de fruta pura)), por 0,97.
(Foto: imagem do centro de Rennes)

Dia 10 - 23 de outubro




TOULOUSE - LOURDES - TOULOUSE




Pegamos o trem às 10:11h para Lourdes. Chegamos às 12:12h, após pararmos em várias cidadezinhas (Lourdes foi a sétima parada). O dia foi lindo, sem chuva, sem vento forte. Do trem, víamos os Pirineus cobertos de neve, pequenas propriedades com plantações de milho, hortinhas, vacas leiteiras bem europeias (como as de desenhos animados), cavalos, patos, ovelhas... Algumas florestas...


Em Lourdes foi uma correria por conta do horário do trem de retorno. Queríamos voltar cedo para irmos ao centro de Toulouse ainda com a luz do sol para vermos a "cidade rosa".


O trem de volta seria direto e, portanto, um pouco mais rápido. Sairia às 14:04h e chegaria às 15.53h.


Lourdes é uma graça de cidade e o seu santuário é belíssimo. Fica em um vale, próximo a um rio pequeno. A gruta é bem exposta, fica no pé do santuário, em uma lateral, e lá eu senti uma emoção parecida com a que senti na Igreja de Santo Antonio, em Lisboa, ou seja, uma emoção pura, livre dos apelos do comércio. Um simples "estar com o sagrado". Isso basta.


Gostei mais de Lourdes do que de Fátima, talvez pela paisagem mais bonita e por haver uma pitoresca cidade em torno da qual se desenvolveu o santuário. Vi muitos italianos, sobretudo deficientes físicos, em peregrinação... e muitas freiras, algumas brasileiras.


O trem de retorno lotou de jovens e ouvi alguém dizendo que eram férias. Muitos viajaram de pé. Os assentos eram em espécies de cabines: 4 assentos de frente para outros quatro, em um compartimento semi-reservado. No nosso, havia 2 senhoras, 1 homem, depois entramos nós, mais 2 moças e 1 rapaz. Estranha sensação de "intimidade obrigatória", mas todos - como sempre, e em toda a parte da França - foram educadíssimos, gentis, prontos para orientar. Maravilhoso este meu querido povo. Maravilhosa essa gente alegre do Midi!


Depois passamos pelo centro de Toulouse: visitamos o Capitólio, com um confuso happy-hour em sua praça, a Ponte Saint-Pierre, vimos o Dôme de la Grave e pegamos o metrô St. Cyprien-République para voltarmos ao hotel.


O rio Garônne estava lindo, largo e manso, raso, lento...


Confesso que alguns daqueles imigrantes africanos me deixaram inseguro em certas partes de Toulouse, sobretudo perto da Gare de Matabiau. O próprio Asiz, o argelino com quem conversei na catraca do metrô na primeira noite em que cheguei, me advertiu.


Ah, o apelido de "ville rose"? Sim, sim, ele ainda vale. Mas não se se seria bem um rosa. Parece mais um rosa-atijolado, algo já puxando para um ocre/ alaranjado. Depende do sol, claro. Os tijolinhos das construções em torno da Praça do Capitólio da velha Tolosa me deram uma impressão de rosa fechado, meio encarnado. Para mim, este não é o rosa que me vem à cabeça quando alguém diz: "cidade rosa". Mas a cor é bonita. É belo e mesmo poético ver o sol lamber as paredes no fim da tarde e tudo ficar monocromático.


Mais visitas a supermercado, claro...


Aqui descobri um produto que precisamos no Brasil com urgência para os que infelizmente têm intolerância à lactose, como eu:


Sojasun (esta é a marca). Comprei sabor mirtilo. Trata-se de um iogurte. Ainda não temos nada igual no Brasil. Custa 1,74 com 4 potinhos.


Compramos também biscoito (0.94), 4 sabonetes (1,60), chá (com 25 saquinhos) 1.90.


Adorei um bolo de 800g, enorme, que custou 1,70.


Também vieram 180 g de presunto (jambon de Paris) por 2,06, 300g de leite em pó (vendido em caixa, custei a achar) por 2.09, pastilhas Vichy (1,15), 1kg de arroz (1,26), 500 g de pão de forma (0,61), 1 pacote de biscoito rechado de chocolate (0,94), 4 sobremesas de mação e morango (1,15), mais 4 potinhos de Sojasun café (1.65).


Daí vão me perguntar: quanto pão vocês compram! Mas não se esqueçam que um viajante econômico não vai almoçar e jantar fora, ok? Fazemos vários sanduíches e comemos enquanto conhecemos os lugares.
(Na foto, Santuário de Lourdes)

Dia 9 - 22 de outubro - parte 2


TOULOUSE - CARCASSONE - TOULOUSE


Langue d'Oc - Ah, esta segunda língua falada dentro dos metrôs é linda! Muito semelhante ao português (o idioma se chama "occitan", ocitano, que é mesmo o provençal, a primeira língua a surgir da fusão do latim com algum idioma "bárbaro". E foi o provençal, na Idade Média, que levou tantas contribuições ao português, ainda galaico em parte, devido às viagens dos trovadores. Que ancestralidade, que delícia saber que isso é vivo, que o provençal também deixou seus genes em minha língua materna.


Eu sei que escrevi pouco sobre Carcassone, mas ela vale cada centímetro pisado. É linda, preservada, tem uma esfera leve, uma aura sorridente. Uma Idade Média bonita, sim, é claro, apesar da perseguição aos cátaros.


Ah, no hotel a água quente acabou repentinamente. Neste caso, muda-se um botão no quadro de botões (rsss, um para cada coisa) para "on" e aguarda-se uma hora. Mas demorou... Aliás, demorou a noite toda para esquentar.

O sistema de aquecimento na França, sobretudo em hotéis e residências, tem dessas coisas. A água quente, que é útil em todas as torneiras na época do frio, acaba e daí não tem Cristo que nos faça tomar banho na água fria/ gelada. Por isso, os banhos tinham de ser rápidos, apesar da convidativa banheira em todos os banheiros dos lugares em que nos hospedamos.


Toulouse é uma cidade tranquila. Ah, sim, é preciso ter cuidado com os imigrantes do Norte da África, os pied-noirs, e com a região de Le Mirail/ Centre, onde eles são frequentes e ficam de olhos em turistas deslumbrados. Não há violência maior por lá. O máximo é baterem carteiras. A isso se chama de "pickpocket" na França. Não são todos os imigrantes, claro. A história entre colonizados e colonizadores se repete e ecoa suas consequências funestas a quem abusou. Mas a França é tolerante, é o país do respeito à individualidade, é mesmo a terra da liberdade.
(Foto: rio Garônne, que corta Toulouse...)

Dia 9 - 22 de outubro


TOULOUSE - CARCASSONE - TOULOUSE




Não conseguimos levantar cedo demais, até porque o hotel fica a 10 minutos a pé do metrô Arènes e a claridade é mais intensa apenas pelas 8 horas da manhã. Saímos umas 9:30 h do hotel. O café da manhã foi uma modesta sopinha que tinha trazido do Brasil... por acaso. Pena que não havia nenhuma padaria ou mercearia nas proximidades. Apenas rodovias, avenidas e prédios residenciais.


Pegamos o metrô, descemos na estação Marengo, onde um corredor nos levava à Gare Matabiau, que era a de trens.


Os vagões do metrô em Toulouse são mais estreitos do que os de São Paulo e nas plataformas existem portas que se abrem apenas quando o metrô para. Não existe plataforma aberta.


Compramos o passe Tribus - 1 journée, para 1 a 6 pessoas. Custou 4.20 euros. Isso dá o direito para de 1 a 6 pessoas usarem o mesmo passe durante 1 dia, por toda a rede de metrô.


O trem para Carcassone sairia às 11:36h. Como tivemos tempo na estação, fomos procurar um supermercado para comprarmos algo para comer. A primeira impressão de alimentação que tivemos na França (e isso se repetiria por toda a viagem) é que comer em padarias e lanchonetes é algo caro. Muito mais barato é comprar no supermercado.


No final da viagem, voltei com a sensação de que a diferença entre comprar no supermercado e comer fora, na França, é muito maior do que no Brasil, proporcionalmente.


Voltamos à estação, aprendemos a compostar os bilhetes naquelas maquininhas anãs, amarelinhas. É só introduzir o bilhete no lado certo e virá-lo gentilmente para a esquerda.


O trem era confortável, com aquecimento que vinha da barte de baixo para cima, e permitiu uma curta viagem agradável, passando por regiões agrícolas.


Para você ter uma ideia dos preços nos supermercados de Toulouse, aí vai:




6 caixinhas (individuais) de suco de laranja: 1,41


200g de salaminho italiano: 1.09


4 bananas nanicas: 1,05


280g de pão de forma (1/2 pacote, aproximadamente): 0,62


1 sanduíche natural de queijo e especiarias: 1,62 (compramos 2)


2 garrafinhas de água, com 750ml cada: 0,90


1 pacote de purê instantâneo de batata: 0,83


2 sopas instantâneas de legumes 1.02.




Os sanduíches e 2 dos suquinhos foram o café da manhã. Não se esqueçam que estávamos em um apart-hotel, mas na noite anterior tudo já estava fechado quando saímos para abastecer nossa despensa.


Carcassone é linda e pitoresca, mas sob chuva e frio não dá. Chegamos na cidade mais moderna, atravessamos uma ponte, seguimos por uma rua, no final viramos à esquerda, caminhamos um pouco mais... (uns 20 minutos de caminhada). E então conseguimos ver a Carcassone antiga no alto de suave colina, após atravessarmos uma ponte sobre um calmo rio com seus patinhos.


Conhecemos a cidade, mas sem o encanto que imaginávamos, devido à chuva. Visitamos suas ruelas, apreciamos suas estátuas expostas, vimos as dezenas de lojinhas (tão carinhas!!!). Assentamo-nos para tomar um café...


1 café + 1 chocolate quente: 3,40


1 cartão telefônico para ligar para o Brasil: 7,50


1 crepe com nutela: 2,50.


Ah, pra quem não sabe, o crepe na França é praticamente a massa de panqueca com recheio. Aquele que comemos no Brasil, que vem seguro por um palitinho, feito em uma espécie de máquina, é o crepe suíço, bem diferente.


Após a visita à cidadela, circundamos sua muralha, vimos as árvores cheias de frutinhas vermelhas que nos acompanhariam por toda a viagem...


Quando voltamos, passamos no Monoprix, um supermercado que tem em todo o país e que costuma ter bons preços e uma excelente variedade.


O segurança era português, e percebeu que éramos do Brasil quando conversei com meu amigo. Muito simpático, ele me disse que tinha se casado com uma brasileira, mas ele e a esposa estavam planejando ir para o Brasil, morar em Goiás... Estavam só fazendo um pé-de-meia. A atendente do supermercado (que ficava nos corredores para ajudar os clientes) era romena.


Todos os que me atenderam e me deram informações na França (até este dia, e por todos os demais) foram sempre educadíssimos, gentis e prestativos. Voltei deste amado país sem qualquer reclamação a respeito de mau atendimento.


No supermercado, querendo fazer economias dos euros, resolvi pagar no cartão de crédito (se eu tivesse bola de cristal, veria que no final das contas ainda voltaria com 1.200 reais para casa).


Mais um exemplo de preços na França:


1 pacote de roti porc cuit (comprei por engano, achei que o preço fosse uma coisa, mas era outro valor...). Era uma espécie de presunto de porco cozido. Custou 5.05. Achei caríssimo.


1 pão de forma (pacote grande): 0,89


1 lata de feijão: 0,69


1 lata de café solúvel com cevada: 1,70


500g de macarrão talharim: 1,76


100 comprimidos de adoçante: 1,05 (ah, não existe adoçante em gotas por lá...).


125g de sal: 0,61


420g de molho de tomate com manjericão: 1,24


poelée champêtre (cozido de legumes congelados): 1,47


10 ovos: 1,61


1 l de leite: 0,69


Sim, compramos isso tudo, enfiamos nas mochilas, pegamos o trem de Carcassone, chegamos a Toulouse, pegamos o metrô, descemos, fomos para o hotel onde preparei um jantar digno, rsss.


É muito prático o sistema ferroviário na França. Aliás, prático é falar com modéstia. É excelente, por isso não ficamos com preguiça de comprar tanta coisa, afinal, só teríamos de andar depois os 10 minutos até o hotel.


Ah, gastamos 2 idas ao banheiro (1,60).




Banheiros públicos na França


Na França tem de tudo: banheiro pago, não pago, banheiro onde paga se quiser. Este era uma cabine metálica, mas por dentro era um "banheiro turco". Sabe o que é isso? Ah, é uma coisa deprimente: o vaso sanitário é uma louça ao nível do chão com lugares para se colocar os pés. Muito desagradável. Eu já sabia que os banheiros públicos na França eram muito diversificados.


Em geral, os banheiros públicos masculinos não têm aqueles mictórios em que os homens ficam um ao lado dos outros. Acho muito interessante, pois evidencia um povo que realmente valoriza mais a individualidade do que nós. Uma outra coisa: há banheiros unissex. Nunca tinha visto isso, mas, em geral, em museus e outros lugares do gênero você pode encontrar banheiros assim. E tudo é muito natural. Você vai lavar as mãos ao lado de uma senhora sorridente, enquanto uma senegalesa entra em uma cabine e um francês bigodudo sai de outra. Tudo no mesmo espaço.


Na cidade de Paris, existem várias cabines nas ruas que são banheiros. Elas funcionam com uma moeda de 50 centavos e avisam se estão ocupadas ou não. Elas funcionam assim: a pessoa acaba de usar, sai da cabine e vai embora. A cabine se fecha. Daí demora um pouco para ela abrir de novo, porque automaticamente ela realizará toda uma limpeza: chão, assento sanitário, desinfecção. É muito bacana, apesar de não terem nenhum charme.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Dia 8 - 21 de outubro


LISBOA - TOULOUSE

A manhã foi para acordarmos mais tarde, tomarmos café da manhã com calma e arrumarmos as malas. Meio-dia e meia pegamos um táxi e fomos para o aeroporto de Lisboa. O taxista, antes mesmo de nos ajeitarmos devidamente no carro, já advertiu, com falsa polidez: "favor não bater a porta". Chato, não é?
No aeroporto também presenciei uma portuguesa na área de checagem das bagagens que só faltou meter a mão na cara do senhor que se recusou a deixar os frascos de perfumes e material de fazer barba que tinham ultrapassado a quantia mínima. Ela realmente se destemperou e excedeu.
Naquela hora, eu já estava aflito e ansioso para deixar Lisboa...
O voo foi maravilhoso, uma hora e meia aproximadamente, sobrevoando uma Espanha nublada que descortinou, na altura dos Pirineus, suas nuvens para que a França se anunciasse.
Nunca esqueço, ó, deuses, o presente de ver minha amada França pela entrada dos Pirineus, a graciosa cadeia montanhosa que a separa das terras espanholas, cobertos de neve eterna em vários picos. Naquela hora, abri um sorriso e esqueci por completo as agruras das experiências em Lisboa. Esqueci-me da ansiedade do voo de avião, esqueci-me dos problemas.
As primeiras imagens, após os Pirineus, foram de uma colcha verdejante, em tons variados, de retalhos de pastos e plantações... Terra plana, linda e fértil, como é fértil a história e o sentimento que povoa o povo de meu querido país...
Que facilidade no aeroporto de Toulouse. Apenas pegamos as malas e já saímos, pela primeira porta. Tomamos um táxi até o hotel (22 euros) e nos alojamos em nosso apart-hotel maravilhoso, novo, elegante e prático. Uma cozinha encantadora, onde pude preparar jantar e café da manhã... Um banheiro incrivelmente bem bolado e a vista panorâmica da amável Toulouse, a cidade rosa.

Mas vamos a alguns detalhes práticos. Alguns hotéis da França (isso está se tornando lei) cobram a "taxa de habitação", um valor por dia de hospedagem. No nosso caso, deu 5,40 euros para 2 pessoas.
Quando saímos do hotel em busca do metrô, fomos por uma linda rua margeada por uma ciclovia, pela qual passavam pessoas bem agasalhadas, já no frio da noite do Sul outonal, mas sem preocupação nenhuma, como se a palavra "perigo" ou a palavra "violência" não existissem...

Porém, já eram oito da noite, tudo estava fechado, pois na época do frio as pessoas voltam mais cedo para suas casas. Foi por isso que o gentil argelino Asiz, que guardava a catraca do metrô, me aconselhou a não me aventurar pelo centro da cidade. Até porque - e ele bem lamentou - existem vários imigrantes da África que visam aos turistas desavisados. É o ato criminoso do "pickpocket", palavra usada por todo o país. Significa "batedor de carteira", talvez uma das mais graves violências naqueles rincões de paz e conforto.

Durante uma hora ficamos conversando em bom francês naquela catraca, ele de um lado e eu do outro. Todo o bate-papo começou porque não tínhamos moedas para comprarmos os bilhetes do metrô (não havia bilheteiro, apenas máquinas). E as máquinas não aceitavam notas. No final da conversa, quando ele já me admirava pela minha história e formação, ele foi lá me dizendo:
"pode entrar de graça, pois eu admiro pessoas como você que vêm de um país mais pobre, mas conseguiu estudar... eu não consegui, infelizmente...".
Mas recusei o convite. Fiquei inseguro em caminhar à noite pelo centro. Voltamos para o hotel, que não ficava assim tão perto do metrô. O frio piorava.
O que comer?
Sobrou-nos a alternativa de uma sopa instantânea que tinha levado do Brasil e de uma geleia de uva, que derreti e transformei em uma espécie de chá... Havia também um restinho de batatas chips. Foi o jantar e o café da manhã do outro dia.
Mas dormimos com a consciência justa, a felicidade de se estar em uma cidade mais amiga, mais alegre, mais Midi.
Dieu merci!
(Foto: Pirineus, na divisa da Espanha com a França, vistos do avião.)

Dia 7 - 20 de outubro


LISBOA - SINTRA - CABO DA ROCA - CASCAIS - OEIRAS - LISBOA


Ser tratado com dignidade é outra coisa. Há salvação para o tratamento que dão aos turistas em Lisboa. Claro, verdade seja dita. Foi este dia em que Lisboa obteve - graças a Sintra e ao educado guia - sua redenção comigo, antes de minha partida à douce France.


Tem de ir a Sintra! Tem. E ponto final. Cascais esquece. A não ser que seja verão e você seja muito de praia. Pra quem é brasileiro e tem praias à revelia, não vi nada de mais...


O dia começou com um toró de assustar. Ligamos oito horas da manhã para uma agência nova, que fazia o roteiro turístico que queríamos pelo menor preço (40 euros por pessoa com um lanche açoriano no final e entrada incluída na Quinta da Regaleira). As outras cobravam, em média, 78 euros! Ah, mas que agência especial é esta? Chama-se Cool Tour Lx. Fale com o Pedro (pedro@cooltourlx.com) antes de fazer qualquer roteiro na metade de baixo de Portugal e diga que eu que indiquei. Foi ótimo, foi perfeito. Foi decente. Fora que nosso passeio foi VIP, pois éramos os dois únicos turistas daquele dia a irmos para lá com eles. Fomos de carro, com explicações a mais e tudo...


Bom, para quem não sabe, Sintra é uma cidade montanhosa, rodeada por uma floresta úmida, quase tropical... dava pra confundir, às vezes... A meia hora de Lisboa! A cidade fica mais embaixo. Nela, podem ser comprados artesanatos, pode-se comer e beber com preços relativamente bons e visitar alguns museus (tudo pago, ok?). Mas nem pense em fazer Sintra por conta própria, como um guia de Lisboa que me entrevistou no castelo de S. Jorge quis sugerir. Ainda bem que não fui. Sintra pode ser acessada via trem suburbano, mas o trem vai deixá-lo na cidade, longe dos lugares legais, que são distantes e, com isso, você paga um ônibus local ou um táxi. E não fica barato. De maneira qué pela agência do Pedro tudo fica melhor, organizado e você é pego e devolvido em seu hotel.


À medida que se sobe, tem-se acesso a lugares muito bonitos.


O primeiro deles foi o Parque e Palácio Nacional da Pena. Ingressos a oito euros por pessoa. Foi o monumento mais caro que pagamos em Portugal (olha, na França um monumento a oito é até barato...). Existe um bonde para se subir o morro arborizado até o palácio (2 euros). Não vale à pena, é bem perto.

O palácio é lindo, todo delirante, cheio de estilos confusos e contrastantes. A adminsitração local, por ser estatal, é bem formal, e os vigias das salas do palácio têm a cara bem fechada. Sabe aqueles que ficam "discretamente" acompanhando seus passos enquanto você entra e sai das salas?


Se tiver tempo, pode caminhar pelas trilhas do parque, um lindo jardim-bosque.


Ao se rodear os caminhos de ronda do palácio, avista-se o medievalíssimo Castelo Mouro, colinas abaixo...


Sim, deve-se ir a Sintra e visitar o Palácio da Pena, mas este é o monumento que eles mais divulgam, deixando de lado outros que, por não serem estatais, ficam à mercê de divulgação própria. E este segundo é um deles, a Quinta da Regaleira. De todos os lugares em que visitei, este é o mais estranho, místico, esotérico, simbólico... Adorei, porque acho interessantíssimos estes assuntos. A sensação é que eu estava em uma espécie de parque de diversões para amantes de ciências ocultas, rsss. Recomendo fortemente que você o visite. O ingresso estava incluído no passeio.


O que há nessa quinta?

Bom, trata-se hoje de um parque-jardim repleto de esculturas, fontes, escadas, torres e até um... poço iniciático, que é descido por uma escada em caracol, até se ter acesso aos subterrâneos. Sim, existem vários túneis criados para que a pessoa tenha experiências sensoriais e espirituais diferentes. Por alguns deles eu consegui passar. Outros são 100% escuros. É intencional. Nem uma velinha para ajudar e dá um pouco de insegurança. Na descida do poço, passando por um labirinto de túneis escuros ou semi-escuros, atingi uma espécie de laguinho, onde nadava um patinho colorido. Este laguinho, com águas totalmente lodosas, tinha pedras distanciadas, sobre as quais se pisava para se atingir o outro lado. Uma coisa meio Indiana Jones... Além desses deleites, o local oferece uma capela lindinha, com mais túneis, rsss... Um Palácio, um verdadeiro quebra-cabeças de esculturas, portas, janelas, escadas, torres, escadas em caracol, portas misteriosas, imagens intrigantes... Fica-se exausto ao se percorrer tudo, como uma criança na Disney, mas é muito bom mesmo!


Depois, fizemos um passeio pelo centro de Sintra (há um Museu dos Brinquedos a 4 euros e um Palácio a 5 euros, mas não fui. Achei caro. Esse povo tá pagando a moda de cobrar tudo...). Em Sintra, compre algumas queijadinhas, que são famosas por lá, na base de oitenta centavos cada. Um chá e um "garoto" (uma espécie de café espresso maior) custam 1,60 euro ambos, para você ter ideia dos valores. Achei um bom preço para turistas brasileiros.


A próxima parada foi no Cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa, onde Camões dizia acabar a terra e começar o mar... Trata-se de um jardim no alto de uma falésia, de onde se avista uma paisagem maravilhosa. Há um marco no local, além de um restaurante com loja de souvenirs e um farol. Há roteiros que não incluem, por não considerarem interessante. Eu, pelo contrário, recomendo muito que visitem o Cabo da Roca. Vale a paisagem, vale a vegetação com suas florzinhas delicadas, valem os rochedos... Tem de ir e pronto.


A seguir, descemos a rodovia no sentido da praia do Guincho (famosa pelo surf e windsurf), que dava acesso a Cascais.

O que há em Cascais? Suas casinhas brancas, o Hotel Baía, uma praia minúscula e feinha no centro da cidade e alguns barcos. É local para ser visitado com calma, para se descobrir os prováveis encantos. No percurso Sintra - Lisboa são vistos muitos fortes, fortalezas, faróis... Mas nada arrebatador.


A derradeira paragem deste dia foi em Oeiras, mais especificamente em um bar-restaurante em um deque de uma baía para iates. Muito agradável, comemos um lanche açoriano: uma espécie de petit gateau mais rústico com algumas torradas e suco. Uma excelente ideia que este pacote oferece.


Pois é, gente. Como disse ao Pedro, o guia, esse passeio e ele é que salvaram a imagem quase que totalmente negativa que eu estava levando de Lisboa e de sua gente. O tempo todo em que estive na capital lusitana eu me senti deprimido e angustiado. Ora, sentia-me agredido pela grosseira das pessoas, ora pela impaciência das mesmas.


O fim do dia terminou com uma passada em frente ao café A Brasileira, com a estátua de Fernando Pessoa em frente, mas sem foto, nem nada. Já estava farto de Lisboa.
(Foto: Poço Iniciático da Quinta da Regaleira)









Dia 6 - 19 de outubro


LISBOA - ÓBIDOS - ALCOBAÇA - NAZARÉ - BATALHA - FÁTIMA - LISBOA


Ah, sim, isso é um pacote pronto. Fechado. Pago com antecedência no Brasil. Pelo amor do seu bolso, não faça isso! A melhor coisa é fazer um pacote no próprio local, pesquisando no hotel aqueles folhetos que as agências deixam nas recepções. Foi insegurança minha ao viajar para um país ainda desconhecido. Não sabia como as coisas funcionavam por lá e, para variar, as informações que obtive antes - por email - não foram as mais esclarecedoras por parte das agências portuguesas. Só por isso paguei. Um roteiro deste sai a 85 euros com almoço. Bobagem: você acha por 40, 48 euros sem almoço e gasta 10 comendo... ou leva seu sanduíche. Enfim... Vamos ao que interessa.


Meu objetivo era única e exclusivamente fazer um roteiro que fosse a Fátima, por pura consideração à banda católica da família. Imagina, eu ir a Portugal e não pisar no famoso santuário. Confesso que nunca tinha ouvido falar desses outros lugares, nem sabia o que encontraria por lá.


Valeu à pena? Sim. É bastante corrido, a guia fez o basicão para embolsar seus 120 euros (a média que um guia ganha por dia em Portugal), o almoço foi frugal... mas valeu sim.Conhecemos pessoas bacanas e os locais visitados foram interessantes.


Óbidos é uma cidade cercada em grande parte por uma muralha de um castelo. Daí já vale, para nós, brasileiros descastelados, a visita. Basicamente, a cidade tem duas ruazinhas, cercadas por casinhas brancas com floreiras e igrejas. Várias. Interessantes, geralmente com ênfase no barroco. Antes de se ter acesso à cidade, avista-se um aqueduto de 3km (Aqueduto da Usseira ou de Óbidos), mandado construir por D. Catarina da Áustria...


O castelo é em estilo medieval e confesso que nem soubemos se dava para entrar. A ênfase foram as muralhas ao redor da cidadela. Foi eleito uma das 7 maravilhas de Portugal. Aliás, visitei, mesmo sem saber, todas as 7 nesta viagem... (Vamos lá... Sei que ficou curioso: Castelo de Guimarães, Castelo de Óbidos, Mosteiro de Alcobaça, Mosteiro de Batalha, Mosteiro dos Jerônimos, Palácio Nacional da Pena e Torre de Belém são os sete...). Nas ruazinhas, são encontradas várias lojinhas de artesanato com a famosa ginginha, um licor feito a partir de uma cerejinha que é esmagada.


O segundo roteiro do dia foi em Alcobaça, onde percorremos a cidade a pé por uns dez minutos até termos acesso ao Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, a primeira obra verdadeiramente gótica construída em Portugal. É lindo. Para quem gosta de arquitetura, tem de conhecer. O início do mosteiro data de 1178. Além do mais, em seu interior podem ser vistos e estudados os dois sarcófagos famosos: de D. Inês de Castro, a plebeia que se tornou rainha depois de morta, e de seu amado D. Pedro I, o Terrível (ou o Justo, como dizem outros). Não tem nada a ver com o nosso. Dê uma olhada nos livros de história, ok? Este D. Pedro nasceu e morreu no século XIV.


Em seguida, fomos para o vilarejo de Nazaré, à beira mar. Uma cidadezinha linda, cercada de tradições, de eternas viúvas cobertas de negro dos pés à cabeça, peixinhos sendo secados ao sol na praia e falésias coloridas ao redor da cidade. Almoçamos uma salada, queijinho de cabra, peixe à milanesa e um raso pires de arroz doce como sobremesa. Ah, sim, houve vinho, cafezinho, licor... A gente bebe tudo, já que pagou mesmo, rss.


No início da tarde, fomos a Batalha visitar o Mosteiro de Batalha (ou de Santa Maria da Vitória), mandado construir por D. João I por agradecimento à vitória na batalha de Aljubarrota. Seu início é de 1386. É um exemplo do gótico português tardio, também chamado de manuelino. Nas chamadas Capelas Imperfeitas, vê-se uma série de túmulos de reis portugueses, conhecido como Panteão de D. Duarte.


O ponto final do dia foi em Fátima, antes passando por uma espécie de "shopping center religioso" em que as pessoas que o desejaram puderam comprar todo tipo de souvenir religioso, inclusive para benzer no santuário. Fátima é um lugar agradável, isolado da cidade de mesmo nome. Ou seja: no santuário só existe o santuário. Todo clean, na cor branca, divide seu espaço entre a igreja em que podem ser vistos os túmulos dos três pastores (Francisco, Jacinta e Lúcia, que se tornou freira), a capela das aparições, rodeada por bancos externos em que ficam pessoas orando e o santuário do Sagrado Coração na outra extremidade do grande espaço aberto. Uma igreja enorme, devo dizer bem. Moderna e muito agradável.


Na volta, ficamos no centro da cidade. Tentamos procurar uma lan-house para usar internet. Foi um custo. Encontramos um café no qual, após algum consumo, podia-se usar os computadores. Não precisa nem dizer que, mais uma vez, não entendi as instruções para encontrar os benditos computadores e quase me estressei novamente com a dificuldade que os lisboetas têm em dar informações simples. Lamento. Mas não sou o primeiro turista a dizer isso... E o pior de tudo: eles têm coragem de dizer, com a cara mais deslavada: "acho que já te dei esta informação"...
(Foto: Santuário de Fátima)