segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Dia 8 - 21 de outubro


LISBOA - TOULOUSE

A manhã foi para acordarmos mais tarde, tomarmos café da manhã com calma e arrumarmos as malas. Meio-dia e meia pegamos um táxi e fomos para o aeroporto de Lisboa. O taxista, antes mesmo de nos ajeitarmos devidamente no carro, já advertiu, com falsa polidez: "favor não bater a porta". Chato, não é?
No aeroporto também presenciei uma portuguesa na área de checagem das bagagens que só faltou meter a mão na cara do senhor que se recusou a deixar os frascos de perfumes e material de fazer barba que tinham ultrapassado a quantia mínima. Ela realmente se destemperou e excedeu.
Naquela hora, eu já estava aflito e ansioso para deixar Lisboa...
O voo foi maravilhoso, uma hora e meia aproximadamente, sobrevoando uma Espanha nublada que descortinou, na altura dos Pirineus, suas nuvens para que a França se anunciasse.
Nunca esqueço, ó, deuses, o presente de ver minha amada França pela entrada dos Pirineus, a graciosa cadeia montanhosa que a separa das terras espanholas, cobertos de neve eterna em vários picos. Naquela hora, abri um sorriso e esqueci por completo as agruras das experiências em Lisboa. Esqueci-me da ansiedade do voo de avião, esqueci-me dos problemas.
As primeiras imagens, após os Pirineus, foram de uma colcha verdejante, em tons variados, de retalhos de pastos e plantações... Terra plana, linda e fértil, como é fértil a história e o sentimento que povoa o povo de meu querido país...
Que facilidade no aeroporto de Toulouse. Apenas pegamos as malas e já saímos, pela primeira porta. Tomamos um táxi até o hotel (22 euros) e nos alojamos em nosso apart-hotel maravilhoso, novo, elegante e prático. Uma cozinha encantadora, onde pude preparar jantar e café da manhã... Um banheiro incrivelmente bem bolado e a vista panorâmica da amável Toulouse, a cidade rosa.

Mas vamos a alguns detalhes práticos. Alguns hotéis da França (isso está se tornando lei) cobram a "taxa de habitação", um valor por dia de hospedagem. No nosso caso, deu 5,40 euros para 2 pessoas.
Quando saímos do hotel em busca do metrô, fomos por uma linda rua margeada por uma ciclovia, pela qual passavam pessoas bem agasalhadas, já no frio da noite do Sul outonal, mas sem preocupação nenhuma, como se a palavra "perigo" ou a palavra "violência" não existissem...

Porém, já eram oito da noite, tudo estava fechado, pois na época do frio as pessoas voltam mais cedo para suas casas. Foi por isso que o gentil argelino Asiz, que guardava a catraca do metrô, me aconselhou a não me aventurar pelo centro da cidade. Até porque - e ele bem lamentou - existem vários imigrantes da África que visam aos turistas desavisados. É o ato criminoso do "pickpocket", palavra usada por todo o país. Significa "batedor de carteira", talvez uma das mais graves violências naqueles rincões de paz e conforto.

Durante uma hora ficamos conversando em bom francês naquela catraca, ele de um lado e eu do outro. Todo o bate-papo começou porque não tínhamos moedas para comprarmos os bilhetes do metrô (não havia bilheteiro, apenas máquinas). E as máquinas não aceitavam notas. No final da conversa, quando ele já me admirava pela minha história e formação, ele foi lá me dizendo:
"pode entrar de graça, pois eu admiro pessoas como você que vêm de um país mais pobre, mas conseguiu estudar... eu não consegui, infelizmente...".
Mas recusei o convite. Fiquei inseguro em caminhar à noite pelo centro. Voltamos para o hotel, que não ficava assim tão perto do metrô. O frio piorava.
O que comer?
Sobrou-nos a alternativa de uma sopa instantânea que tinha levado do Brasil e de uma geleia de uva, que derreti e transformei em uma espécie de chá... Havia também um restinho de batatas chips. Foi o jantar e o café da manhã do outro dia.
Mas dormimos com a consciência justa, a felicidade de se estar em uma cidade mais amiga, mais alegre, mais Midi.
Dieu merci!
(Foto: Pirineus, na divisa da Espanha com a França, vistos do avião.)

Dia 7 - 20 de outubro


LISBOA - SINTRA - CABO DA ROCA - CASCAIS - OEIRAS - LISBOA


Ser tratado com dignidade é outra coisa. Há salvação para o tratamento que dão aos turistas em Lisboa. Claro, verdade seja dita. Foi este dia em que Lisboa obteve - graças a Sintra e ao educado guia - sua redenção comigo, antes de minha partida à douce France.


Tem de ir a Sintra! Tem. E ponto final. Cascais esquece. A não ser que seja verão e você seja muito de praia. Pra quem é brasileiro e tem praias à revelia, não vi nada de mais...


O dia começou com um toró de assustar. Ligamos oito horas da manhã para uma agência nova, que fazia o roteiro turístico que queríamos pelo menor preço (40 euros por pessoa com um lanche açoriano no final e entrada incluída na Quinta da Regaleira). As outras cobravam, em média, 78 euros! Ah, mas que agência especial é esta? Chama-se Cool Tour Lx. Fale com o Pedro (pedro@cooltourlx.com) antes de fazer qualquer roteiro na metade de baixo de Portugal e diga que eu que indiquei. Foi ótimo, foi perfeito. Foi decente. Fora que nosso passeio foi VIP, pois éramos os dois únicos turistas daquele dia a irmos para lá com eles. Fomos de carro, com explicações a mais e tudo...


Bom, para quem não sabe, Sintra é uma cidade montanhosa, rodeada por uma floresta úmida, quase tropical... dava pra confundir, às vezes... A meia hora de Lisboa! A cidade fica mais embaixo. Nela, podem ser comprados artesanatos, pode-se comer e beber com preços relativamente bons e visitar alguns museus (tudo pago, ok?). Mas nem pense em fazer Sintra por conta própria, como um guia de Lisboa que me entrevistou no castelo de S. Jorge quis sugerir. Ainda bem que não fui. Sintra pode ser acessada via trem suburbano, mas o trem vai deixá-lo na cidade, longe dos lugares legais, que são distantes e, com isso, você paga um ônibus local ou um táxi. E não fica barato. De maneira qué pela agência do Pedro tudo fica melhor, organizado e você é pego e devolvido em seu hotel.


À medida que se sobe, tem-se acesso a lugares muito bonitos.


O primeiro deles foi o Parque e Palácio Nacional da Pena. Ingressos a oito euros por pessoa. Foi o monumento mais caro que pagamos em Portugal (olha, na França um monumento a oito é até barato...). Existe um bonde para se subir o morro arborizado até o palácio (2 euros). Não vale à pena, é bem perto.

O palácio é lindo, todo delirante, cheio de estilos confusos e contrastantes. A adminsitração local, por ser estatal, é bem formal, e os vigias das salas do palácio têm a cara bem fechada. Sabe aqueles que ficam "discretamente" acompanhando seus passos enquanto você entra e sai das salas?


Se tiver tempo, pode caminhar pelas trilhas do parque, um lindo jardim-bosque.


Ao se rodear os caminhos de ronda do palácio, avista-se o medievalíssimo Castelo Mouro, colinas abaixo...


Sim, deve-se ir a Sintra e visitar o Palácio da Pena, mas este é o monumento que eles mais divulgam, deixando de lado outros que, por não serem estatais, ficam à mercê de divulgação própria. E este segundo é um deles, a Quinta da Regaleira. De todos os lugares em que visitei, este é o mais estranho, místico, esotérico, simbólico... Adorei, porque acho interessantíssimos estes assuntos. A sensação é que eu estava em uma espécie de parque de diversões para amantes de ciências ocultas, rsss. Recomendo fortemente que você o visite. O ingresso estava incluído no passeio.


O que há nessa quinta?

Bom, trata-se hoje de um parque-jardim repleto de esculturas, fontes, escadas, torres e até um... poço iniciático, que é descido por uma escada em caracol, até se ter acesso aos subterrâneos. Sim, existem vários túneis criados para que a pessoa tenha experiências sensoriais e espirituais diferentes. Por alguns deles eu consegui passar. Outros são 100% escuros. É intencional. Nem uma velinha para ajudar e dá um pouco de insegurança. Na descida do poço, passando por um labirinto de túneis escuros ou semi-escuros, atingi uma espécie de laguinho, onde nadava um patinho colorido. Este laguinho, com águas totalmente lodosas, tinha pedras distanciadas, sobre as quais se pisava para se atingir o outro lado. Uma coisa meio Indiana Jones... Além desses deleites, o local oferece uma capela lindinha, com mais túneis, rsss... Um Palácio, um verdadeiro quebra-cabeças de esculturas, portas, janelas, escadas, torres, escadas em caracol, portas misteriosas, imagens intrigantes... Fica-se exausto ao se percorrer tudo, como uma criança na Disney, mas é muito bom mesmo!


Depois, fizemos um passeio pelo centro de Sintra (há um Museu dos Brinquedos a 4 euros e um Palácio a 5 euros, mas não fui. Achei caro. Esse povo tá pagando a moda de cobrar tudo...). Em Sintra, compre algumas queijadinhas, que são famosas por lá, na base de oitenta centavos cada. Um chá e um "garoto" (uma espécie de café espresso maior) custam 1,60 euro ambos, para você ter ideia dos valores. Achei um bom preço para turistas brasileiros.


A próxima parada foi no Cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa, onde Camões dizia acabar a terra e começar o mar... Trata-se de um jardim no alto de uma falésia, de onde se avista uma paisagem maravilhosa. Há um marco no local, além de um restaurante com loja de souvenirs e um farol. Há roteiros que não incluem, por não considerarem interessante. Eu, pelo contrário, recomendo muito que visitem o Cabo da Roca. Vale a paisagem, vale a vegetação com suas florzinhas delicadas, valem os rochedos... Tem de ir e pronto.


A seguir, descemos a rodovia no sentido da praia do Guincho (famosa pelo surf e windsurf), que dava acesso a Cascais.

O que há em Cascais? Suas casinhas brancas, o Hotel Baía, uma praia minúscula e feinha no centro da cidade e alguns barcos. É local para ser visitado com calma, para se descobrir os prováveis encantos. No percurso Sintra - Lisboa são vistos muitos fortes, fortalezas, faróis... Mas nada arrebatador.


A derradeira paragem deste dia foi em Oeiras, mais especificamente em um bar-restaurante em um deque de uma baía para iates. Muito agradável, comemos um lanche açoriano: uma espécie de petit gateau mais rústico com algumas torradas e suco. Uma excelente ideia que este pacote oferece.


Pois é, gente. Como disse ao Pedro, o guia, esse passeio e ele é que salvaram a imagem quase que totalmente negativa que eu estava levando de Lisboa e de sua gente. O tempo todo em que estive na capital lusitana eu me senti deprimido e angustiado. Ora, sentia-me agredido pela grosseira das pessoas, ora pela impaciência das mesmas.


O fim do dia terminou com uma passada em frente ao café A Brasileira, com a estátua de Fernando Pessoa em frente, mas sem foto, nem nada. Já estava farto de Lisboa.
(Foto: Poço Iniciático da Quinta da Regaleira)









Dia 6 - 19 de outubro


LISBOA - ÓBIDOS - ALCOBAÇA - NAZARÉ - BATALHA - FÁTIMA - LISBOA


Ah, sim, isso é um pacote pronto. Fechado. Pago com antecedência no Brasil. Pelo amor do seu bolso, não faça isso! A melhor coisa é fazer um pacote no próprio local, pesquisando no hotel aqueles folhetos que as agências deixam nas recepções. Foi insegurança minha ao viajar para um país ainda desconhecido. Não sabia como as coisas funcionavam por lá e, para variar, as informações que obtive antes - por email - não foram as mais esclarecedoras por parte das agências portuguesas. Só por isso paguei. Um roteiro deste sai a 85 euros com almoço. Bobagem: você acha por 40, 48 euros sem almoço e gasta 10 comendo... ou leva seu sanduíche. Enfim... Vamos ao que interessa.


Meu objetivo era única e exclusivamente fazer um roteiro que fosse a Fátima, por pura consideração à banda católica da família. Imagina, eu ir a Portugal e não pisar no famoso santuário. Confesso que nunca tinha ouvido falar desses outros lugares, nem sabia o que encontraria por lá.


Valeu à pena? Sim. É bastante corrido, a guia fez o basicão para embolsar seus 120 euros (a média que um guia ganha por dia em Portugal), o almoço foi frugal... mas valeu sim.Conhecemos pessoas bacanas e os locais visitados foram interessantes.


Óbidos é uma cidade cercada em grande parte por uma muralha de um castelo. Daí já vale, para nós, brasileiros descastelados, a visita. Basicamente, a cidade tem duas ruazinhas, cercadas por casinhas brancas com floreiras e igrejas. Várias. Interessantes, geralmente com ênfase no barroco. Antes de se ter acesso à cidade, avista-se um aqueduto de 3km (Aqueduto da Usseira ou de Óbidos), mandado construir por D. Catarina da Áustria...


O castelo é em estilo medieval e confesso que nem soubemos se dava para entrar. A ênfase foram as muralhas ao redor da cidadela. Foi eleito uma das 7 maravilhas de Portugal. Aliás, visitei, mesmo sem saber, todas as 7 nesta viagem... (Vamos lá... Sei que ficou curioso: Castelo de Guimarães, Castelo de Óbidos, Mosteiro de Alcobaça, Mosteiro de Batalha, Mosteiro dos Jerônimos, Palácio Nacional da Pena e Torre de Belém são os sete...). Nas ruazinhas, são encontradas várias lojinhas de artesanato com a famosa ginginha, um licor feito a partir de uma cerejinha que é esmagada.


O segundo roteiro do dia foi em Alcobaça, onde percorremos a cidade a pé por uns dez minutos até termos acesso ao Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, a primeira obra verdadeiramente gótica construída em Portugal. É lindo. Para quem gosta de arquitetura, tem de conhecer. O início do mosteiro data de 1178. Além do mais, em seu interior podem ser vistos e estudados os dois sarcófagos famosos: de D. Inês de Castro, a plebeia que se tornou rainha depois de morta, e de seu amado D. Pedro I, o Terrível (ou o Justo, como dizem outros). Não tem nada a ver com o nosso. Dê uma olhada nos livros de história, ok? Este D. Pedro nasceu e morreu no século XIV.


Em seguida, fomos para o vilarejo de Nazaré, à beira mar. Uma cidadezinha linda, cercada de tradições, de eternas viúvas cobertas de negro dos pés à cabeça, peixinhos sendo secados ao sol na praia e falésias coloridas ao redor da cidade. Almoçamos uma salada, queijinho de cabra, peixe à milanesa e um raso pires de arroz doce como sobremesa. Ah, sim, houve vinho, cafezinho, licor... A gente bebe tudo, já que pagou mesmo, rss.


No início da tarde, fomos a Batalha visitar o Mosteiro de Batalha (ou de Santa Maria da Vitória), mandado construir por D. João I por agradecimento à vitória na batalha de Aljubarrota. Seu início é de 1386. É um exemplo do gótico português tardio, também chamado de manuelino. Nas chamadas Capelas Imperfeitas, vê-se uma série de túmulos de reis portugueses, conhecido como Panteão de D. Duarte.


O ponto final do dia foi em Fátima, antes passando por uma espécie de "shopping center religioso" em que as pessoas que o desejaram puderam comprar todo tipo de souvenir religioso, inclusive para benzer no santuário. Fátima é um lugar agradável, isolado da cidade de mesmo nome. Ou seja: no santuário só existe o santuário. Todo clean, na cor branca, divide seu espaço entre a igreja em que podem ser vistos os túmulos dos três pastores (Francisco, Jacinta e Lúcia, que se tornou freira), a capela das aparições, rodeada por bancos externos em que ficam pessoas orando e o santuário do Sagrado Coração na outra extremidade do grande espaço aberto. Uma igreja enorme, devo dizer bem. Moderna e muito agradável.


Na volta, ficamos no centro da cidade. Tentamos procurar uma lan-house para usar internet. Foi um custo. Encontramos um café no qual, após algum consumo, podia-se usar os computadores. Não precisa nem dizer que, mais uma vez, não entendi as instruções para encontrar os benditos computadores e quase me estressei novamente com a dificuldade que os lisboetas têm em dar informações simples. Lamento. Mas não sou o primeiro turista a dizer isso... E o pior de tudo: eles têm coragem de dizer, com a cara mais deslavada: "acho que já te dei esta informação"...
(Foto: Santuário de Fátima)